15º Aniversário - Festival Évora Classica
OS ORIENTAIS

"Naturalmente subversivo por entre os seus e em revolta contra todos os usos tradicionais, o etnógrafo mostra-se respeitoso até ao conservadorismo, sempre que a sociedade em questão aparenta ser diferente da sua".
Esta reflexão de Claude Lévi-Strauss, de quem festejamos este ano o centenário, está longe de ser desprovida de sentido. Depois de ter posto em questão uma sociedade julgada falsa nas suas convenções sociais, morais e religiosas, apareceu este fascínio por sociedades que tentam conservar uma herança oral e identitária face à razia da mundialização.
Antagonismo e esquizofrenia habitam o apaixonado pelo Oriente, tão fascinado pelas melopeias enrugadas de uma sanfona do deserto, como pelas proezas do som do I Phone.
Apesar de tudo isto, não nos iludamos, o mundo tradicional marginalizado pela nossa ideolatria consumista alimenta, antes de mais, do deserto do Rajastão às margens do mediterrâneo, o fabrico de imagens da indústria turística e das agências de viagens.
Os « Orientais de Évora », sempre à procura de outros mundos, propõem uma outra maneira de ouvir e apreender o mundo da música.
A música para muitas culturas é mais do que um divertimento e tem dentro dela as raízes profundas da emoção e da espiritualidade, do rito e do quotidiano.
As músicas que apresentamos no nosso Festival são bastante festivas e joviais mas são também um testemunho das grandes civilizações orais, da diversidade das expressões artísticas humanas e da verdade de um modo de vida onde a natureza ainda tem sentido.
Assim, o Festival Évora Clássica é um dos raros festivais em Portugal a oferecer espectáculos que, como esta cidade, pertencem ao património da humanidade, expressões artísticas que, em breve, terão talvez completamente desaparecido.
Este ano, para lá do seu ambiente caloroso e tradicional, o Festival convidará o público para uma viagem, que vai do coração da Ásia até ao Mediterrâneo.
Prazer para os olhos e para os ouvidos, refinamento de um gesto coreográfico ou de uma voz cristalina ou enrugada como o sopro do vento, os cantos e músicas de tradição, simultaneamente terrestres e celestes, transportam o corpo e a alma, quer sejam mediterrânicos ou orientais.
Esta edição, mais do que noutras, demonstrará como o acto musical remete sempre para uma imagem, valorizará, de um certo modo, a relação
« imagem/som » da tradição, conferindo um lugar especial ao cinema indiano que dá muita importância à música. O ciclo « Ciné Rama » será uma homenagem ao novo cinema Bollywood, à procura da sua história por intermédio de sumptuosas produções.
Com uma criação cine-concerto : A luz da Ásia (Prem Sanyas), filme mudo de Franz Osten (1935), que evoca a infância e a adolescência de Buda, musicado pelos músicos « manghaniyars » do Rejastão, um som apropriado é restituído a uma imagem de um outro tempo, o das cortes reais do Rajastão, o País dos Príncipes. Este passado não é assim tão longínquo porque, apesar das suas convulsões económicas, a Índia continua culta, sábia e inspirada nesta transe da alma que provoca ainda os grandes mestres como Shashank ou Pt Vishwa Mohan Bhatt, convidados do Festival.

A imagem da Índia será também este ano, um postal ilustrado para crianças, a de « Chota Mela », festinha indiana pontuada pelos desfiles de magias destes ilusionistas, fabricantes de sonhos e aprendizes de feiticeiros que precederam o artifício do cinema.
Num outro imaginário cinematográfico, veiculado pelos filmes de Emir Kusturica ou de Tony Gatlif: o do músico gypsy, exuberante e decadente, festivo e jovial, tendo como fundo roulottes velhas e coloridas ou ainda, como na Hungria, o violinista virtuoso que tanto faz rodar os vestidos compridos da aristocracia húngara como os saiotes coloridos dos albergues populares (csardas).
Com o clarinetista Yom, que reinventa a música yiddish com a fogosa cigana incarnada pelo tambor das Balcãs, o tapan, é esta mesma determinação virtuosa que voltamos a encontrar.
Nestes tempos de incerteza, estes valores de transmissão fazem cada vez mais sentido. A maior parte deste músicos, mais do que um divertimento, exprimem a vida e estão ancorados numa memória que os torna intemporais, é sem dúvida o seu maior trunfo face ao mundo actual e ao futuro.
Presidente do Festival: Claudine de Cadaval
& Director Artistico: Alain Weber










